Ao falar sobre a dark web, frequentemente as pessoas estão se referindo a sites onion e ao Tor. Entretanto, o Tor é apenas uma parte da Darknet. Existem ainda outras redes na internet obscura.
Para compreender ao máximo esse artigo, recomendamos ler também “O que é a rede Tor e como ela funciona”, onde nós explicamos os princípios de funcionamento da rede Tor.
Nos artigos anteriores:
Internet secreta, parte 1: o que é Dark Web e por que a utilizam
Internet secreta, parte 2: como funcionam os sites .onion ← você está aqui
Internet secreta, parte 3: o que é a Freenet
Internet secreta, parte 4: o que é o I2P e como ele funciona
Internet secreta, parte 5: como acessar a Darknet através do Tor, I2P e Freenet
Os serviços Onion são serviços acessíveis apenas por meio da rede Tor. Ao iniciar um serviço Onion, você fornece aos seus usuários toda a segurança do HTTPS, juntamente com os benefícios adicionais de privacidade fornecidos pelo navegador Tor.
A diferença entre Darknet e a internet convencional está no fato de que os sites na rede obscura são uma combinação de números e letras e o domínio de nível superior com que terminam não é .com ou algo parecido, mas sim .onion.
Domínio de nível superior é o ponto de partida do nome de um site. No entanto domínios .onion não podem ser acessados de nenhum lugar, exceto pelo Tor, já que é apenas em sua rede que eles são armazenados. Os domínios da internet convencional, por exemplo, são armazenados em servidores DNS.
Por exemplo, um site pode se chamar assim:
https://duckduckgfgjdkgjtkjgjkjefi59u49u34fji3fjzad.onion. Ou seja, para entrar em qualquer site da rede obscura - é necessário saber exatamente seu endereço.
A rede onion aumenta a privacidade e a segurança dos usuários de várias maneiras:
Oculta a localização do usuário;
Utiliza autenticação em cascata;
Utiliza criptografia em cascata.
O Tor é uma rede sobreposta. Basicamente, é uma internet que funciona em cima da internet convencional. Na internet convencional, são utilizados os protocolos TCP/IP, graças aos quais é possível determinar a localização dos usuários. Como o Tor trabalha acima da internet convencional, trabalha também acima de TCP/IP, e não os utiliza em seus protocolos.
Na rede Tor, cada usuário sabe que está recebendo uma informação específica desde um nó específico. Isso quer dizer que um segundo nó não pode interferir na transmissão da solicitação, se passando pelo remetente daquela informação. Para ilustrar, imaginemos a seguinte situação envolvendo uma loja de roupas de marca.
Suponhamos que uma pessoa decidiu comprar roupas na loja PARA. Ela vai até o local e percebe que há duas lojas PARA lado a lado. Uma delas vende produtos originais, enquanto a outra - falsificados. Além disso, o próprio dono da segunda loja é um golpista que engana seus clientes. Seria fácil cometer um erro e acabar comprando um produto falso, já que as duas lojas são idênticas e ninguém sabe em qual delas são vendidos os produtos originais.
No caso dos sites Onion, não é possível enganar os usuários. As informações na rede estão vinculadas a um nó específico e ninguém mais pode se passar por um nó com as mesmas informações.
Na internet convencional, por outro lado, esse tipo de golpe existe e é conhecido como ataque DNS. O ataque funciona da seguinte maneira: no sistema DNS, um hacker altera o endereço IP real do site para um endereço falso. Quando alguém tenta acessar o site, acaba sendo redirecionado para o falso sem perceber a diferença, já que o endereço do recurso falso em nada difere do original.
Por exemplo, se o registro DNS do site mysite.com for alterado por um falso, então todos os links relacionados na internet redirecionarão o usuário ao site fake. Para que a diferença não seja perceptível, o hacker copia todo o design original, de forma que o usuário não perceba a falsificação.
No site falso, podem existir vírus ou softwares de phishing, através dos quais o golpista roubará informações do usuário. Entretanto, existem diversos métodos de proteção contra ataques DNS, o que torna a substituição do registro DNS de um site bastante difícil.
A criptografia em cascata protege o tráfego que vai desde o remetente até o destinatário na rede Tor, e ninguém, inclusive nós intermediários, sabe qual informação está sendo transmitida pelo canal criptografado.
Esse método de proteção existe também na internet convencional. O tráfego é protegido por meio de criptografia SSL/HTTPS. A diferença do Tor, no entanto, é que na internet convencional nem todos os sites são protegidos por esses protocolos.
Os serviços Onion são serviços de rede baseados em TCP que estão disponíveis apenas através da rede Tor e proporcionam anonimato mútuo: o cliente Tor é anônimo para o servidor e o servidor é anônimo para o cliente.
Os clientes recebem acesso aos sites através de domínios onion, que funcionam apenas dentro da rede Tor.
Entre o cliente e a plataforma, existem seis nós Tor. O caminho é construído em duas direções: do cliente para o nó e da rede Tor para esse mesmo nó. Ambas as partes não conhecem o endereço IP uma da outra.
Na rede Tor existem vários nós. Guarda - é o “nó segurança”. É o primeiro de outros três nós que compõem o circuito Tor. Ele inicia e termina essa cadeia Tor, garantindo que as informações do circuito não sejam comprometidas. O nó intermediário não é nem um nó de guarda nem um nó de saída, mas sim atua, como o próprio nome indica, como um intermediador entre eles.
A interação entre um site e a rede Tor ocorre passo a passo. Vamos entender melhor cada um deles.
No primeiro passo, o recurso Onion calcula as chaves privada e pública → seleciona nós aleatórios como pontos de entrada → informa a esses pontos a sua chave pública. O ponto de entrada é necessário apenas para estabelecer a conexão, não participando da transmissão de informações.
A chave privada do site não é conhecida por ninguém, e com base na chave pública, é gerado o nome de domínio do site. Além disso, nenhum dos nós com os quais o site se comunica têm conhecimento da localização do recurso.
O próprio recurso Onion está oculto na rede Tor e se protege de visitas indesejadas, permitindo o acesso apenas através de três pontos de entrada pelos quais as solicitações são encaminhadas.
No segundo passo, são utilizadas as chaves privadas. Para que os usuários possam encontrar os sites e a rede Tor possa mostrá-los, os recursos são reunidos em uma tabela hash distribuída, basicamente um diretório. No entanto, esse diretório é armazenado por partes em diferentes nós da rede.
Para que um site seja incluído nesse diretório, a rede coleta seu descritor, ou seja, uma descrição técnica do site.
O descritor contém uma lista dos pontos de entrada e as chaves de autenticação desde o primeiro passo, necessárias para acessar o site.
Em seguida, essa informação é assinada com a chave privada, que é a parte secreta da chave pública. Ela é codificada no endereço do recurso Onion.
Os dois primeiros passos ocorrem de maneira independente do cliente e o usuário não pode observá-los. Nós os explicamos para que ficasse claro como os sites surgem na rede Tor.
Agora, chegamos no passo em que um cliente real deseja visitar um recurso.
Suponhamos que o usuário queira acessar o recurso Onion SecureDrop. Para que isso seja possível, o navegador consulta a tabela hash distribuída do passo 2 e solicita o descritor assinado do recurso Onion SecureDrop.
No entanto, na realidade, o usuário acessa a tabela hash de forma indireta, por meio de um recurso intermediário. Por exemplo, obtém o link para o SecureDrop em um site público na internet ou em algum outro site Onion.
Quando o usuário acessa o endereço do site, ele se conecta à tabela hash distribuída e solicita o hash do recurso. O hash é uma marca que se parece $hash.onion - um nome de 16 caracteres derivado da chave pública do serviço.
E se esse hash realmente existir, a rede Tor verificará automaticamente a chave pública que está codificada no endereço Onion. Dessa forma, a rede entenderá que o descritor na tabela está associado a um recurso específico e não a um recurso qualquer. Isso garante a característica de segurança da autenticação em cascata.
Além disso, dentro do descritor estão os pontos de entrada pelos quais a conexão com a plataforma SecureDrop é estabelecida. Basicamente, é por meio desses pontos que o navegador sabe para onde enviar a solicitação de conexão ao site.
Antes de enviar a solicitação para a rede Tor, o usuário escolhe um nó aleatório e se conecta a ele. Na verdade, o cliente solicita que o nó se torne seu ponto de encontro e repassa a ele o endereço do ponto de encontro e um "segredo descartável", ou seja, de uso único, que será usado para o procedimento de conexão com o site. Em seguida, a mensagem é criptografada usando a chave pública do serviço oculto.
O ponto de entrada repassa os dados do usuário (a string secreta e o endereço de encontro, ou endereço “Rendezvous”) para o recurso, que inicia vários processos de verificação e decide se você é confiável ou não.
Através de um canal anônimo, o recurso se conecta ao ponto de encontro, um serviço oculto especial decifra a mensagem introdutória usando sua chave privada, e graças a isso toma conhecimento do ponto de encontro e do “segredo de uso único”.
O ponto de encontro realiza uma última verificação de correspondência das strings secretas entre você e o recurso e, em seguida, estabelece a conexão entre o cliente e o site.
Como resultado, o cliente e o serviço oculto se comunicam entre si através desse ponto de encontro. Todo o tráfego é protegido por criptografia em cascata, e o ponto de encontro retransmite os dados de ida e volta.
Em geral, para a comunicação em cascata, são utilizados 6 nós. Três deles são selecionados pelo serviço especial, e três são selecionados pelo cliente, incluindo o ponto de encontro.
A estrutura geral de funcionamento dos sites, desconsiderando a presença dos nós (eles deixariam o esquema muito mais complexo e dificultariam a compreensão).
Resumindo brevemente a dinâmica do esquema:
O servidor oculto envia sua chave pública para o ponto de introdução. Isso é feito para anonimizar o criador do site. Graças a isso, a conexão será estabelecida através do ponto de introdução, enquanto os dados serão totalmente transmitidos por outros pontos.
O servidor oculto envia o descritor para a tabela hash distribuída. O descritor contém a chave pública e as informações sobre o ponto de introdução, ao qual assina com a chave privada do serviço.
O cliente solicita o nome do site xyz.onion, onde xyz é um nome de 16 caracteres derivado da chave pública.
Após a solicitação do cliente, as informações são enviadas em duas direções: para o ponto de introdução e para o ponto de encontro. O ponto de encontro é escolhido aleatoriamente e é usado para que, futuramente, as informações do recurso Onion cheguem a ele. Cada usuário tem sua própria rota para o ponto de encontro, portanto, não há um único caminho para transmitir informações na rede Tor.
As informações sobre o ponto de encontro e a mensagem introdutória, criptografada com a chave pública do serviço, são enviadas ao ponto de introdução.
As informações são enviadas do ponto de introdução para o servidor oculto. É assim que o servidor oculto fica sabendo sobre o ponto de encontro.
O servidor oculto envia as informações para o ponto de encontro.
O ponto de encontro verifica uma última vez a correspondência das strings secretas do usuário e do recurso.
O ponto de encontro envia as informações sobre o recurso para o cliente.
Uma conexão é estabelecida entre o usuário e o servidor oculto, e agora eles podem trocar informações.
Proxies como o Tor2Web e outros semelhantes ajudam você a se conectar a sites .onion usando navegadores convencionais. O processo é o seguinte: primeiro, o servidor proxy se conecta ao Tor e, em seguida, reencaminha o tráfego para você através da internet convencional.
No entanto, essa não é uma opção segura. Com ela você perde sua anonimidade, já que o provedor de internet, hackers e o governo podem rastrear a qual site você se conectou, quais dispositivos você usou para isso e assim por diante.
Eles descobrirão que você está usando um proxy Tor2Web e poderão rastrear as informações confidenciais que você obtém da rede. Tenha em conta que, depois de sair do Tor, a criptografia e a autenticação em cascata são perdidas, o que torna mais fácil obter acesso ao seu tráfego.