Em 2021, o site oficial do governo dos Estados Unidos publicou um relatório¹ que revelou a extensão dos dados que os provedores de internet coletam sobre seus clientes, incluindo detalhes sobre dispositivos, IPs dos usuários e sites visitados. Essa informação poderia então ser vendida a terceiros, como empresas e anunciantes.
Além disso, roubos online de informações confidenciais são frequentes. Apenas no ano de 2021, foram registrados² 1,4 milhões de casos de roubo de dados de usuários nos Estados Unidos.
Uma medida eficaz para proteger-se de golpes e garantir a privacidade de dados pessoais é usar uma VPN. Neste artigo, explicaremos o que exatamente é uma VPN e como ela funciona.
Virtual Private Network – rede privada virtual, ou VPN, é uma tecnologia
que ajuda a criar uma ou mais conexões em cima de outra rede.
O termo VPN é comumente utilizado para referir-se a uma conexão segura entre um dispositivo e a internet ou entre dois dispositivos. Por meio de uma conexão VPN, o tráfego de dados é criptografado, a localização do usuário é alterada e as informações confidenciais são protegidas contra vazamentos.
A cada usuário da internet é atribuído um endereço IP (do inglês Internet Protocol). Quando uma pessoa se conecta diretamente à rede de um provedor, ela recebe um endereço IP pertencente ao grupo de endereços desse provedor.
Os provedores são obrigados a armazenar e fornecer, mediante solicitação, informações sobre por quem e quando foi utilizado um endereço IP, bem como a quais servidores o usuário estava conectado neste momento. Sendo assim, os provedores poderiam também usar essas informações de maneira indevida, como vendendo para agências de marketing ou empresas de análise de dados e estatísticas online.
Quando são utilizadas private networks, o provedor do usuário tem acesso apenas à conexão com os servidores, conhecidos como “pontos de entrada” em uma VPN.
O funcionamento é simples: ao conectar-se usando uma VPN, a solicitação do usuário chega primeiro ao servidor VPN. Nele, o serviço cria um túnel especial no qual a solicitação e as informações do usuário são criptografadas. Em seguida, a solicitação segue para o servidor do site, mas dessa vez dentro desse túnel seguro, pelo qual também retorna.
Portanto, ainda que alguém obtenha acesso às informações do usuário, a VPN impede que elas sejam entendidas sem a decodificação apropriada do tráfego.
Como um serviço de VPN pode ter servidores em diferentes países, o endereço IP e a localização do cliente também são alterados: usar o servidor de outro país equivale a ter outro endereço IP.
Para entender como funcionam os serviços de VPN, podemos usar uma analogia: imagine que você foi convidado para uma festa com um código de vestimenta que exige o uso de máscaras para garantir o anonimato dos convidados. De forma similar, a VPN atua como uma máscara online, ocultando o endereço IP e a localização real do usuário, para que servidores, governos e hackers não possam identificá-lo.
Quais são os protocolos de VPN utilizados pelos serviços?
O esquema acima nos mostra que VPNs utilizam a criptografia AES-256 e diferentes protocolos para garantir a proteção do usuário.
Criptografia AES-256. A melhor, mais confiável e conhecida. Essa criptografia basicamente divide o tráfego de dados em vários blocos fechados que não podem ser decifrados.
Por usar a mesma chave para criptografar e descriptografar informações, a criptografia AES-256 é conhecida também como criptografia simétrica.
Como funciona a criptografia AES-256
Esse algoritmo é tão poderoso, que até mesmo um supercomputador demoraria mais tempo do que a própria existência do universo para decifrá-lo.
Protocolos WireGuard, OpenVPN, L2TP / IPsec, , IKEv2 / IPsec.
Os três primeiros são praticamente idênticos, exceto pela segurança e velocidade.
WireGuard é mais rápido e confiável que os demais. Ele utiliza criptografia moderna e protocolos UDP para transferência de dados. O código em si tem apenas 4.000 linhas, por isso é mais fácil verificar suas possíveis vulnerabilidades e torná-lo melhor.
Em segundo lugar OpenVPN — um protocolo universal de código aberto. O que o difere do WireGuard é o seu código mais longo, que torna a busca e correção de vulnerabilidades nele mais difícil. Utiliza TCP e UDP para transferência de dados.
O terceiro lugar é ocupado por L2TP / IPsec. L2TP não criptografa o tráfego, por isso é utilizado em conjunto com IPsec. Para funcionar, utiliza porta 500 UDP, razão pela qual VPNs nesse protocolo às vezes não funcionam bem: a porta pode ser bloqueada por firewalls.
IKEv2 / IPsec se parece com o protocolo anterior, mas funciona em dispositivos móveis.
As VPNs podem ser divididas em duas categorias: as que são utilizadas por usuários comuns, e as que são utilizadas por empresas.
Para usuários
Pessoais. São VPNs utilizadas por usuários comuns para conectar-se à internet e navegar online de maneira segura, além de contornar firewalls e bloqueios por localização geográfica.
Móveis. São como as pessoais, porém funcionam em smartphones.
Para empresas
Com acesso remoto. São VPNs utilizadas por funcionários a fim de obter acesso online a uma rede privada da empresa durante viagens ou home office.
Site-to-site. Enquanto as VPNs anteriores estão projetadas para proteger uma única rede, VPNs site-to-site unem redes online distintas. Se uma empresa tem dois escritórios em diferentes países, por exemplo, suas redes podem ser unificadas através de uma VPN site-to-site, tornando seu desempenho melhor.
Contornar bloqueios. Algumas vezes, os governos bloqueiam determinados sites e não é possível abri-los desde sua localização.
Manter o anonimato. Praticamente todos os sites rastreiam os IPs reais dos usuários. Ao invadir um site, um hacker teria acesso a todos os IPs de seus visitantes.
Proteger o tráfego de dados. Vamos supor que um hacker sabe que determinada pessoa usa internet de maneira não segura. Ele poderá ficar entre o tráfego do usuário e o servidor para interceptar os dados online. Esse tipo de ataque se chama MITM – ataque man-in-the-middle (homem no meio, em português).
Conectar-se a redes públicas. Tais redes encontram-se em metrôs, cafeterias, aeroportos e outros locais públicos. Ter acesso online a partir desses lugares pode ser uma excelente ferramenta, mas é melhor proteger-se ao usá-las: sua baixa segurança faz com que hackers consigam invadi-las e interceptar o tráfego de saída de seus usuários.
As VPNs protegem todo o tráfego de saída, tornando impossível hackeá-lo.
Criar uma rede corporativa privada. Se os funcionários de uma empresa costumam enviar online arquivos secretos uns aos outros, um hacker pode invadir sua conexão e roubar informações.
Economizar nas compras. Alguns preços, como de passagens ou outros produtos, podem variar dependendo do país do qual se faz a busca. Com uma VPN, o usuário pode alterar sua localização, o que significa que ele pode acessar o site a partir de um país no qual determinado produto é oferecido por um preço mais baixo.
Artigo “o que são proxies”
Usar uma VPN é permitido pela lei?
Cada país possui suas próprias leis em relação ao uso de VPNs. Nos Estados Unidos, na Inglaterra e no Canadá, por exemplo, redes privadas podem ser usadas sem limitações. Na Rússia, para fins pessoais, é permitido usar uma VPN, mas oferecer o serviço é proibido. Na China, as redes privadas são completamente proibidas.
Por isso, informe-se a respeito das leis de seu país antes de assinar um serviço de VPN.
Os serviços de VPN podem ser oferecidos em forma de aplicativos para computadores ou smartphones, ou ainda como um plugin em navegadores. Eles variam em seus protocolos, serviços adicionais e até preços, mas seus princípios de funcionamento são os mesmos.
Também é possível comprar ou baixar gratuitamente um serviço de VPN.
Diferenças entre os serviços pagos e gratuitos
Os serviços de VPN podem variar em termos de segurança, recursos disponíveis, preços e desempenho. Para facilitar essa comparação, vejamos a tabela a seguir:
| Gratuitos | Pagos | |
| Protegem o tráfego | +/- | + |
| Ajudam a contornar bloqueios geográficos | +, porém nem todos são capazes | +, nem todos são capazes |
| Mantêm o anonimato | Frequentemente vendem informações a terceiros, como o governo e anunciantes | + |
| Usam criptografia e protocolos seguros | Depende do serviço. Geralmente usam PPTP, que pode ser facilmente hackeado | + |
| Quantidade de servidores | Geralmente de 1 a 10 servidores em vários países | Mais de 100 servidores |
| Largura de banda | Geralmente limitada, o que reduz a velocidade de conexão | Ilimitada |
| Qualidade do suporte técnico | Geralmente não respondem às mensagens | Respondem prontamente e ajudam a resolver o problema |
| Suporte em vários idiomas | Geralmente o suporte é oferecido apenas em inglês | Muitas vezes oferecem suporte em outros idiomas, inclusive em português |
Optar pela compra de um serviço também pode ser a melhor opção devido aos recursos adicionais oferecidos:
Firewall integrado. O firewall atua como uma barreira de segurança entre o dispositivo e a internet, o que significa que ele é capaz de bloquear sites suspeitos e de phishing que constam em sua base de dados.
Proteção contra vazamento de DNS (domain name system). O DNS converte nomes de sites em endereços IP e vice-versa. Antes de acessar qualquer site, seu dispositivo envia consultas DNS para determinar o endereço IP do domínio que você está visitando.
Quando o DNS entra em uma rede, um hacker pode descobrir a localização geográfica real do usuário ou qual é o seu provedor de internet, e logo em seguida, o IP real do cliente. A VPN protege contra esse vazamento, já que usa outros servidores DNS para identificar o host.
Desligamento de rede emergencial (Kill switch). Se a conexão VPN for interrompida, o programa automaticamente bloqueará o tráfego de saída do computador.
Tunelamento de tráfego dividido (Split tunelling). O tráfego de dados se divide em dois: um que está sob o endereço IP real, e outro – sob o modificado. Essa função é útil caso o usuário precise acessar alguns sites usando seu IP real.
Dentre as vantagens de comprar uma VPN está também a garantia de reembolso, válida geralmente por 30 dias. Se após a compra o usuário perceber que a VPN não o ajudou a contornar um bloqueio ou esconder seu IP, por exemplo, ele pode enviar uma mensagem ao suporte solicitando a devolução do preço total de sua assinatura.
Além disso, uma interface de VPN em português é um recurso muitas vezes oferecido apenas por serviços pagos.
O país de registro do serviço. Se uma empresa coopera ou não com o governo, depende do país em que está registrada. Existe, por exemplo, uma associação denominada “Aliança dos 14 olhos”, da qual fazem parte:
| ???????? Canadá ???????? Estados Unidos ???????? Holanda ???????? Dinamarca ???????? França | ???????? França ???????? Alemanha ???????? Reino Unido ???????? Suécia ???????? Espanha | ???????? Austrália ???????? Nova Zelândia ???????? Bélgica ???????? Itália |
A aliança também inclui países membros da OTAN:
| ???????? Grécia ???????? Portugal ???????? Hungria | ???????? Romênia ???????? Islândia | ????????, ????????, ????????, ???????? Países Bálticos. |
E ainda ???????? Israel, ???????? Cingapura, ???????? Coreia do Sul e ???????? Japão.
Serviços VPN registrados nesses países são obrigados a repassar para o governo informações sobre os clientes, caso solicitado. Geralmente são repassados:
Endereço IP real;
Duração da sessão;
Características do dispositivo do usuário.
Por esse motivo, ao escolher uma VPN, é melhor optar por serviços que estão registrados em outros países.
Número de servidores. Quanto mais, melhor. Se uma empresa tem poucos servidores, e muitos usuários se conectam a eles simultaneamente, os servidores podem ficar sobrecarregados e cair.
Por outro lado, se há servidores suficientes, a carga é distribuída uniformemente, o que significa um serviço mais estável e com melhor desempenho.
Número de dispositivos por conta. Assim como no ponto anterior, quanto mais, melhor. Isso significa que você pode usufruir de uma internet segura em vários dispositivos, pelo preço de apenas uma assinatura.
A melhor opção é usar um provedor de VPN que forneça as instruções e configurações para criar a rede VPN no roteador. Nesse caso, todos os dispositivos que estiverem conectados ao Wi-Fi desse roteador estarão protegidos.
Política sem registro. O significado de política sem registro é que o serviço não irá armazenar informações sobre o usuário e suas ações na rede. Somente os serviços cujas sedes estão localizadas fora do território da Aliança dos 14 olhos podem conduzir tal política.
Tunelamento de tráfego dividido (Split tunelling). Faz com que, simultaneamente, uma parte do tráfego passe por um túnel VPN protegido, e a outra por uma conexão normal. Isso significa que é possível usar a internet a partir de dois endereços IP: um do provedor, e outro da VPN.
Desligamento de rede emergencial (Kill switch). Impede que informações confidenciais vazem para a internet caso ocorra algum problema com os servidores da empresa.
Criptografia AES-256. Para impedir que hackers consigam invadir o tráfego.
Firewall integrado. Para não cair na armadilha de golpistas ou acidentalmente acessar um site de phishing.
Proteção contra vazamento de DNS. Para que ninguém saiba o endereço IP e a localização real do cliente.
Suporte técnico em chat ao vivo. Para resolver de forma rápida eventuais problemas. A comunicação via e-mail pode atrasar a solução do problema. Vale também considerar serviços que oferecem suporte em português.
Uma VPN é a melhor ferramenta para criar uma rede privada e confiável, protegendo-se contra golpes de phishing e vazamento de informações. Dentre outras coisas, isso significa a possibilidade de conectar-se a redes públicas sem preocupações, contornar bloqueios geográficos, manter o anonimato e estabelecer uma rede corporativa segura.
Fontes das estatísticas:
1 — A Look At What ISPs Know About You
(Uma conferida no que os ISPs sabem sobre você)
2 — Consumer Sentinel Network Data Book 2021
(Livro de dados da rede Consumer Sentinel 2021)
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